06/06/2017

[Report] LÂMINA: apresentação do álbum de estreia "Lilith" no Sabotage Club


A cena nacional de Sludge/doom/stoner metal pincelada com laivos psicadélicos sofre um crescendo de projetos e qualidade, músicos que resistem a tendências e pontapeiam os rótulos, misturando num caldeirão, influências e estilos que libertam um feitiço sonoro que rompe o trajeto das fórmulas fáceis. Nada do que fazem é fácil, não se procura os momentos “catchy”, os ritmos de absorção instantânea, todas a composição é complexa, os sentimentos que provocam originam longas reflexões interiores, numa viagem sensorial que afastará os menos disponíveis.


A noite de sábado, três de junho, trazia-nos uma oportunidade para ver em palco duas bandas que desde 2013 encarnam esse espírito e essa maneira de fazer música. 

Numa noite de celebração, para ver nascer o álbum de estreia dos Lâmina, Lilith, como o mito cristão, uma força de resistência insubjugável. Encerrava-se um ciclo com cerca de quatro anos, que levou o quarteto a abrir para bandas como Acid King e Greenleaf, assim como passagens muito elogiadas por festivais como o Sonic Blast Moledo ou o Reverence Valada, e iniciava-se outro em direção a um futuro que augura ser promissor.

Já habituados a levar ao Sabotage Club a sua música sombria e adversa à ordem social estabelecida, em viagens introspetivas, coube aos My Master The Sun abrirem a noite, numa altura que a pequena sala já se encontra repleta de almas.
Foto de arquivo SFTD: My Master The Sun @ RCA Club Jun/2015
O som difícil nos primeiros momentos de atuação, não impediu que a poesia negra de ‘Os Corvos Levantam Voo’ penetrasse nos presentes, cativos daqueles versos dolorosos e intimistas que nos embalavam num transe até surpreendentemente nos desferir uma chapada com riffs orelhudos e um grito de despertar e revolta. 

Por entre o ritmo dominante, as guitarras chamam a atenção para si em dedilhados que quebram singelamente e momentaneamente o peso dos riffs, enquanto na plateia o público deixa-se levar numa viagem introspetiva de olhos colados no palco, enquanto a mente viaja nos movimentos dos corpos que deixam fluir a música. Os aplausos no final dos temas trazem-nos de volta à terra e presenteiam a entrega da banda.

A set list curta permitiu ainda assim brindar os presentes com uma solida amostra dos dois trabalhos já lançados, o EP “My Master the Sun” e o álbum “A Arte da Desobediência”, para além de ‘Os Corvos Levantam Voo’, tocaram ainda ‘Pó’, ‘Quando a morte Chegar’, ‘TV’ e ‘Assassimio’ desfilando os temas sempre com uma violência verbalizada e instrumentalizada que nos derruba de qualquer pedestal para o meio da bélica revolta humana, num turbilhão de emoções, ao mesmo tempo que a entrega espelhada no rosto de Ricardo Falé dá expressão física àquelas letras.

No final unanimidade de aplausos para a grande prestação da banda que abandonava o palco após cerca de quarenta minutos de atuação.

Já passava da meia-noite quando os Lâmina subiam a palco para apresentar o fresquíssimo “Lilith”, apresentando-se com um certa envolvência cénica e teatral que desde logo convidou os presentes a partir numa viagem sem roteiro pelo labiríntico universo oculto da banda. 

Foto de arquivo SFTD: Lâmina @ RCA Club Jun/2015
Montam a armadilha, começam lento e despertam a curiosidade, sobem o ritmo e a agressividade e sem darmos conta estamos presos na sua teia psicadélica por onde percorrem sonoridade Stoner e Doom metal, irrepreensivelmente executadas nos instrumentos e encarnadas com emoção na voz andrógena de Vasco Duarte. O feitiço de “Lilith” entranhasse na sala, e é em introspeção coletiva que os temas do álbum vão desfilando, percorrendo os corpos e levando as mentes consigo numa intensa experiencia de emoções vividas em cada riff, entre paisagens áridas e locus horrendus de um universo fantasmagórico.

Individualmente todos os elementos brilham no seu tempo, sem destoar ou enfraquecer o conjunto, há espaço para as guitarras de Vasco Duarte e Sérgio Costa imporem o ritmo, com riffs pesados ou até mesmo com sonoridades que nos remetem para os Blues, para o baixo grosso de Filipe Homem Fonseca se fazer ouvir ou para a bateria de Katari roubar o espetáculo com a agressividade indomável. Desta forma surge um som orgânico à volta de uma linha narrativa, não exatamente definida, mas que parece sempre presente, de revolta e poder feminino, Lilith é uma entidade mística sempre presente que parece fazer-se ouvir por detrás de cada verso.

A grande ovação que receberam logo no final do primeiro tema, repetiu-se, crescendo a cada momentos em que os aplausos e gritos pudessem fazer-se ouvir sem interromper o transe coletivo que fluía sobe a música, e conduziu ao interminável coro de aplausos com que saíram de palco, tocado que estava todo o novo trabalho sem que houvesse indícios entre os presentes de vontade de dar a noite como finda.

Dentro do género e até à data “Lilith” é talvez o mais sério candidato a álbum do ano, as paisagens e o universo composto pela banda é ilustrado com rigor e entrega no palco, motivos pelos quais os fãs devem prestar atenção a este álbum e acorrer às atuações, ficando desde já a sugestão para dia 21 Julho no WoodRock Festival.



Veja também: